Onde Tudo é Nada... E o Nada é Tudo
Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011
Dialogo com um "Jovem a Rasca"

- Então, foste à manifestação da geração à rasca?
 - Sim, claro.
 - Quais foram os teus motivos?
 - Acabei o curso e não arranjo emprego.
 - E tens respondido a anúncios?
 - Na realidade, não. Até porque de verão dá jeito: um gajo vai à praia, às esplanadas, as miúdas são giras e usam pouca roupa.

Mas de inverno é uma chatice. Vê lá que ainda me sobra dinheiro da mesada que os meus pais me dão. Estou aborrecido.
 - Bom, mas então por que não respondes a anúncios de emprego?
 - Err...
 - Certo. Mudando a agulha: felizmente não houve incidentes.
 - É verdade, mas houve chatices.
 - Então?
 - Quando cheguei ao viaduto Duarte Pacheco já havia fila.
 - Seguramente gente que ia para as Amoreiras.
 - Nada disso. Jovens à rasca como eu. E gente menos jovem. Mas todos à rasca.
 - Hum... E estacionaste onde? No parque Eduardo VII?
 - Tás doido?! Um Audi TT cabrio dá muito nas vistas e aquela zona é manhosa. Não, tentei arranjar lugar no parque do Marquês. Mas estava cheio.
 - Cheio de...?
 - De carros de jovens à rasca como eu, claro. Que pergunta!
 - E...?
 - Estacionei no parque do El Corte Inglés. Pensei que se me despachasse cedo podia ir comprar umas coisinhas à loja gourmet.
 - E apanhaste o metro.
 - Nada disso. Estava em cima da hora e eu gosto de ser pontual.
Apanhei um táxi. Não sem alguma dificuldade, porque havia mais jovens à rasca atrasados.
 - Ok. E chegaste à manif.
 - Sim, e nem vais acreditar.
 - Diz.
 - Entrevistaram-me em directo para a televisão.
 - Muito bom. O que disseste?
 - Que era licenciado e estava no desemprego. Que estava farto de pagar para as reformas dos outros.
 - Mas, se nunca trabalhaste, também não descontaste para a segurança social.
 - Não? Pois... não sei.
 - Deixa-me adivinhar: és licenciado em "Estudos Marcianos".
 - F***-se! És bruxo, tu?
 - Palpite. E então, gritaste muito?
 - Nada. Estive o tempo todo ao telemóvel com um amigo que estava na manif do Porto.

E enquanto isso ia enviado mensagens para o Facebook e o Twitter pelo iPhone e o Blackberry.
 - Mas isso não são aparelhinhos caros para quem está à rasca?
 - São as armas da luta. A idade da pedra já lá vai.
 - Bem visto.
 - Quiriquiri-quiriquiri-qui! Quiriquiri-quiriquiri-qui!
 - Calma, rapaz. Portanto despachaste-te cedo e ainda foste à loja gourmet.
 - Uma merda! A luta é alegria, de forma que continuámos a lutar Chiado acima, direitos ao Bairro Alto.

Felizmente uma amiga, que é muito previdente, tinha reservado mesa.
 - Agora os tascos do Bairro aceitam reservas?
 - Chamas tasco ao Pap'Açorda?
 - Errr... E comeram bem?
 - Sim, sim. A luta é cansativa, requer energia. Mas o pior foi o vinho. Aquele cabernet sauvignon escorregava...
 - Não me digas que foste conduzir nesse estado.
 - Não. Ainda era cedo. Nunca ouviste dizer que a luta continua? E continuou em direcção ao Lux

Fomos de táxi. Quatro em cada um, porque é preciso poupar guito para o verão. Ah... a praia, as esplanadas, as miúdas giras e com pouca roupa...
 - Já não vou ao Lux há algum tempo, mas com a crise deve estar meio morto, não?
 - Qual quê! Estava à pinha. Muita malta à rasca.
 - E daí foste para casa.
 - Não. Apanhei um táxi para um hotel. Quatro estrelas, que a vida não está para luxos.
 - Bom, és um jovem consciente. Como tinhas bebido e...
 - Hã?! Tu passas-te! A verdade é que conheci uma camarada de luta e... bem... sabes como é.
 - Resolveram fazer um plenário?
 - Quê? Às vezes não te percebo.
 - Costuma acontecer. E ficaram de ver-se?
 - Ha! Ha! Ha! De ver-se, diz ele. Não estás a ver a cena. De manhã chegámos à conclusão que ela era bloquista

e eu voto no Portas. Saiu porta fora. Acho que foi tomar o pequeno-almoço à Versailles.
 - Tu tomaste o teu no hotel.
 - Sim, mas mandei vir o room service, porque ainda estava meio ressacado.
 - Depois pagaste e...
 - A crédito, atenção. Com o cartão gold do Barclays.
 - ... rumaste a casa.
 - Sim, àquela hora a A5 não tinha trânsito. Já não havia malta à rasca a entupir o tráfego.
 - Moras onde? Paço d'Arcos? Parede?
 - Que horror! Não, não. Moro na Quinta da Marinha, numa casita modesta que os meus pais se vêem à rasca para pagar. Para a próxima levo-os comigo.

Gonçalo


 

 


sinto-me:

publicado por casadegentedoida às 22:15
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