Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Casa de Gente Doida

Onde Tudo é Nada... E o Nada é Tudo

Casa de Gente Doida

Onde Tudo é Nada... E o Nada é Tudo

"CASA"

casadegentedoida, 28.10.09

 

A propósito da polémica gerada em torno da mais recente obra de José Saramago, “Caim”, numa primeira fase, acolhi com alguma cumplicidade o tema desse novo livro do nosso Nobel da Literatura, aliás tinha já abordado o assunto em 01/01/2009 (quando teci uma crítica dirigida ao meu amigo Fernando Rocha Amaral, a propósito da sua obra “Em busca de Deus”).

Essencialmente “critiquei” o Velho Testamento pelas suas mensagens de “ ira, maldade, vingança, morte e destruição” … e concretizei com algumas passagens: “ Abel e Caim, Sodoma e Gomorra, Noé e o Dilúvio, Jó, os Hebreus no Egipto, as doze pragas que os egípcios sofreram enquanto o faraó não se decidiu a libertar o Povo Escolhido, o Mar Vermelho que se abriu para os hebreus e se fechou à passagem do exército egípcio…”.
Há de facto muita dureza no Antigo Testamento e foi nesse sentido que critiquei o princípio de “olho por olho, dente por dente”. Pelo contrário, defendi o Novo Testamento, que nos mostra um Deus misericordioso e pela mensagem de paz, de perdão e de esperança que nos transmite.
Relativamente a “Caim”e à sua controvérsia, na medida do possível, acompanhei várias declarações do autor através da televisão, nomeadamente, um frente a frente com o padre Carreira das Neves e uma entrevista no Expresso com o padre Tolentino de Mendonça. Impressionou-me a clarividência de Saramago, a segurança com que defendia as suas posições e, no imediato, parecia ser ele o vencedor dos confrontos com os opositores.
Mais distanciado desse burburinho, na minha cabeça começaram a instalar-se dúvidas no que diz respeito ao tema em si e à forma como foi contestado por diversas personagens ou instituições, bem como à forma dura e firme como Saramago aparentemente vencia tudo e todos. No entanto, para mim, a determinada altura, a sua postura passou a ser encarada sob um outro prisma e a sua firmeza e intransigência adquiriu o formato de altivez, desdém e arrogância.
Segundo o autor de Caim, vivemos num regime político de liberdade em que um artista pode dizer muito bem o que lhe apetece, seja qual for o tema ou assunto versado. Achei que fazia sentido o que dizia, no entanto, quando confrontado com as declarações de um deputado europeu do PSD, de que perante tamanho “escândalo”, deveria renunciar à cidadania portuguesa, interrompeu o jornalista e disse que esse assunto não merecia sequer ser abordado, já que não comentava frases estúpidas qualquer que fosse a sua proveniência.
Este episódio fez-me lembrar uma brincadeira de crianças antiga e penso que ainda actual, que eram as “caçadinhas” em que um jogador tentava apanhar os outros que corriam e escondiam-se para evitarem ser caçados. Em última instância, o fugitivo, prestes a ser “caçado”, recorria ao argumento de estar em “casa” e dizendo esta palavra ficava automaticamente salvo do perseguidor, já que “casa” era terreno neutro onde ficava em segurança.
Quis-me parecer que Saramago recorreu a esse velho truque da “casa” quando a citação do tal deputado batia em algo que certamente o magoava. Mas então não vivemos num país livre, em que já não há fogueiras em S. Domingos? Em que somos livres de dizer o que quisermos? Em que a liberdade de expressão é um direito para todos, ou será só para alguns usarem segundo a sua conveniência. Na iminência de serem apanhados recusam-se terminantemente a falar sobre o assunto.
Eu, como pseudo-autor, escritor ou artista, não poderia dizer nestes minhas artísticas frases, que a mãe de Saramago era uma p… o pai era um c… e por aí fora? Sou livre e posso dar expressão aos meus pensamentos, às minhas dúvidas ou devaneios, no entanto não o faço, porque mesmo em liberdade, há alguma ética e decência a preservar, caso contrário estaríamos numa anarquia no pior sentido que essa palavra possa ter.
É evidente que o senhor Saramago se esconde no seu ateísmo para ganhar imunidade contra os detractores, mas, tal como ele se afirma ateu, também posso declarar-me anti-social para não ter que dar justificações sobre aquilo que penso, falo ou escrevo, mesmo que sejam barbaridades.
 
25 de Outubro de 2009  
Miguel Costa   

 

Subscrevo totalmente a opinião deste Amigo, não vi a entrevista toda mas conhecendo a obra  de Saramago e o próprio, tenho de lhe dar muita razão.

Isto é mesmo uma casadegentedoida.

 

 

2 comentários

Comentar post